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quarta-feira, 24 de março de 2010

76.ª «Uma viagem por três Lisboas e muitos séculos faz-se em meia dúzia de passos», in-Público, 18.03.2010/1431

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Núcleo arqueológico do Castelo de São Jorge apresentado

Uma viagem por três Lisboas e muitos séculos faz-se em meia dúzia de passos

18.03.2010 - 21:28 Por Alexandra Prado Coelho

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Aqui – e a arqueóloga Ana Gomes aponta para a nossa esquerda – era a zona da cozinha, onde foi encontrada uma área de fogo e cerâmica fracturada. Do outro lado, ficavam “as latrinas, uns buracos no chão ligados a um sistema de esgotos”. Numa divisão mais à frente foram encontradas duas rocas. O que seria? Talvez um harém, brinca Ana Gomes. Estamos num pátio interior de uma casa islâmica. Mas estamos também entre as muralhas do Castelo de São Jorge.

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O núcleo arqueológico do castelo, que começou a ser escavado em 1996 quando se pensou fazer ali um parque de estacionamento, abriu hoje com pompa e circunstância – uma performance da Companhia de Ópera do Castelo, discurso do presidente da câmara, António Costa a falar da Lisboa “encruzilhada de culturas”, outro discurso do arquitecto João Luís Carrilho da Graça, responsável pelo projecto, embaixadores de países islâmicos, chá e frutos secos, como se comeriam na época em que estas casas eram habitadas.

Este não é um núcleo arqueológico comum. “Em Lisboa não há nada semelhante”, garante Ana Gomes, que, juntamente com Alexandra Gaspar, é a responsável pelas escavações. “Estamos num espaço urbano. Não seria crível que fôssemos encontrar casas com 200 metros de área, ainda com pinturas e pavimentos.”

Quando os trabalhos começaram sabiam que era provável aparecerem ruínas do Palácio dos Condes de Santiago (sécs. XV-XVIII, que ruiu com o terramoto de 1755) e que se sabia ter sido construído sobre o Paço dos Bispos (sécs. XII a XV). “Tudo isto estava metido na terra até aqui” – Ana levanta o braço apontando bem acima das nossas cabeças. De facto, lá estava o palácio, mas rapidamente começaram a aparecer vestígios, primeiro de um muro da época islâmica e depois das ruínas de duas grandes casas. Tão bem conservadas que ainda mantêm estuques pintados e decorados com motivos geométricos e com o chamado “cordão da felicidade”.

Mas escavaram mais (noutro ponto) e o que surgiu foram vestígios de habitações da Idade do Ferro (do século VII a.C. ao século III a.C.): o que se pensa ser uma cozinha, com uma área de fogo e restos de panelas, potes, taças e ânforas (que podem ser vistos no núcleo museológico, situado também dentro das muralhas do castelo). Existem, portanto, vestígios de três épocas distintas.

Quando conheceu as escavações, Carrilho da Graça lembrou-se das ruínas romanas de Volubilis, em Marrocos. “Lembro-me de estar lá e pensar que seria interessante termos ali a materialização de uma daquelas casas. Achei mais interessante explorar a espacialidade do que fazer o que estava previsto, que era construir um alpendre para proteger as ruínas.”


Pré-história ali ao lado

É também por isso que este é um núcleo arqueológico especial – porque aqui arqueologia e arquitectura cruzam-se e, pelo que disseram todos os envolvidos, foi um cruzamento cheio de tensões, e até de discussões violentas.

Perante o que restava das paredes das casas islâmicas, Carrilho da Graça fê-las crescer e criou uma casa de paredes brancas, o mais semelhante possível com a que ali terá existido, deixando-a como que a pairar sobre as ruínas – “um milagre da levitação das paredes”, disse António Costa.

É por isso que, em vez do esforço de imaginação que geralmente fazemos perante ruínas, aqui tornamo-nos uns convidados vindos do futuro para entrar na casa dos nossos antepassados e tentarmos perceber como eles viviam. Temos o pátio interior, com o jardim central, as várias divisões, e até as pinturas na parede.

Ao lado, passamos para a pré-história e aí o arquitecto criou uma espécie de caixa de aço (o mesmo aço que circunda toda a escavação, demarcando-a), com uma abertura rasgada pela qual podemos espreitar para o fundo (esta é uma escavação mais profunda). “Havia uma estrutura metálica a conter o terreno em redor e tinha tal ferocidade que decidi deixá-la aparente”, explica Carrilho da Graça. O facto de espreitarmos por uma fenda “cria um ambiente de mistério” que ajuda à cenografia que o arquitecto quis fazer em todo o espaço.

Por fim, na zona do palácio não era necessário uma protecção como nas outras duas áreas, pelo que Carrilho da Graça limitou-se a criar uma espécie de tecto com um espelho que reflecte o chão dos séculos XV e XVI. E assim, debaixo dos nossos pés, sobre as nossas cabeças, nas paredes à nossa volta, renascem não uma mas três Lisboas – e a viagem no tempo demora apenas meia dúzia de passos.

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v Fotoġrafiyä de-“Pedro Cunha” " al-mâṣdar : http://www.publico.pt/Cultura/uma-viagem-por-tres-lisboas-e-muitos-seculos-fazse-em-meia-duzia-de-passos_1428321 , consultāḋo ẽm-24.03[Março/ar-Rabīħ].2010 / 09.04[Rabīħ al-thānī].1431 . Mensāgem modificāḋä ẽm-24.03[Março/ar-Rabīħ].2010 / 09.04[Rabīħ al-thānī].1431 .

75.ª «Achado arqueológico raro no Castelo», in-D.N., 18.03.2010/1431

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Lisboa

Achado arqueológico raro no Castelo

por ISALTINA PADRÃO 18 Março 2010

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É a única capital europeia com um núcleo arqueológico com vestígios do séc. VII a.C. até ao séc. XVIII. Abre hoje

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Em 2600 metros quadrados, localizados no Castelo de São Jorge, em Lisboa, "coabitam" povos desde o século VII a.C. até aos nossos dias. Trata-se do Núcleo Arqueológico do Castelo que hoje abre as suas portas ao público e no qual se encontram vestígios desde a Idade do Ferro até ao século XVIII, sem esquecer que o projecto arquitectónico bem como a sinalética têm como autores dois portugueses do século XXI.

Estamos perante um núcleo civilizacional contínuo raro de encontrar. Aliás, segundo as arqueólogas que têm trabalhado nas escavações, este é um projecto ímpar, de que muito se orgulham. "Hoje, Lisboa é a única capital europeia que, num castelo com uma freguesia intramuros, tem um núcleo arqueológico visitável onde se vê um pedaço histórico de várias ocupações desde o séc. VII a.C. até ao séc. XVIII", disse ao DN a historiadora Susana Serra, corroborada por Ana Gomes e Alexandra Gaspar, arqueólogas da Direcção Regional da Cultura de Lisboa e Vale do Tejo.

"Com estas dimensões e em tão bom estado de conservação é raro encontrar num mesmo espaço vestígios que testemunham três períodos significativos da história do Castelo e de Lisboa", frisa Ana Gomes. Esta responsável refere-se às estruturas habitacionais da Idade do Ferro (séc. VII a.C. - III a.C.); a um bairro islâmico de meados do séc. XI (época da construção do Castelejo); e ainda a vestígios do Palácio dos Condes de Santiago.

Os primeiros vestígios foram encontrados em 1996, quando se pensava transformar a praça nova do Castelo num parque. "No âmbito do projecto de requalificação do Bairro do Castelo havia a intenção de fazer aqui um parque de estacionamento. Quando as arqueólogas começaram as escavações perceberam que havia aqui vestígios relevantes que mereciam uma intervenção profunda", explicou a gestora do Castelo, Teresa Oliveira.

Dada a relevância dos achados, em 2006 iniciou-se um processo de musealização com a candidatura ao Plano Operacional da Cultura (POC). Em Dezembro de 2008 foi instalado o núcleo museológico na zona do antigo Paço Real "com o espólio encontrado intramuros, com incidência na área arqueológica", disse Teresa Oliveira.

E foi nesta área que as arqueólogas começaram por encontrar vestígios da Idade do Ferro. Neste núcleo havia vestígios de muros e de um compartimento que corresponderá à cozinha, onde havia potes, taças, panelas e ânforas (peças que serão expostas no núcleo museológico). Outro núcleo visitável é o islâmico, onde se encontraram ruas e casas (correspondentes à típica casa mediterrânea). "Têm um pátio central, despensa, cozinha e compartimentos que se organizam à volta do pátio: cozinha, despensa, salões com alcovas (quartos)", disse Ana Gomes, adiantando que as casas têm cerca de 200 m2 e estão bem preservadas.

No terceiro núcleo, o do palácio, que pertenceu aos bispos de Lisboa até ao séc. XV e depois foi arrendado aos condes de Santiago, "foram achados compartimentos correspondentes ao rés-do-chão, onde estavam cozinha, armazéns, despensas, cavalariças e jardim", frisou Alexandra Gaspar adiantando que o palácio ruiu com o terramoto de 1755. As peças intactas achadas estão no museu. Tudo pode ser visto a partir de hoje, dia da inauguração do núcleo, onde ontem se faziam os últimos retoques.

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" al-mâṣdar : http://dn.sapo.pt/inicio/portugal/interior.aspx?content_id=1521650&seccao=Sul , consultāḋo ẽm-24.03[Março/ar-Rabīħ].2010 / 09.04[Rabīħ al-thānī].1431 . Mensāgem modificāḋä ẽm-24.03[Março/ar-Rabīħ].2010 / 09.04[Rabīħ al-thānī].1431 .